30 de Abril de 2009

Fim da segunda temporada

E foi isto, meus amigos. Vemo-nos depois do Verão, em princípio com muitas novidades e de cara lavada, para a terceira temporada de contos. Até lá!

(Entretanto, já sabem que estão todos convidados a participar com uma história de sua autoria sobre o Astro. Qualquer contribuição será sempre bem-vinda e agradecida.)

27 de Abril de 2009

Casimiro entre Douro e Minho

- Estou enjoado.
- Não estás nada. Vamos a mais uma.
- Estou, estou. Passámos a tarde nisto. Vamos parar um bocado.
- Vamos nada. Só mais uma. Vá lá.
- Nem penses. Já estou tão farto disso que nem imaginas.
- Mas eu não. Sabes que não posso fazer isto todos os dias, como tu.
- E eu com isso? A menos que me queiras ver a chamar o grego, por hoje já chega.
Casimiro estava na Bracalândia. Os seus pais tinham-no deixado ir passar uns dias a Braga, a casa de um primo afastado. Duas horas depois de terem avançado o muro, para entrar no parque de diversões, ainda não tinham feito outra coisa além de andar nos Elefantes Voadores. Até concursos para ver quem corria mais rápido da saída da diversão até à entrada já tinham feito. O Astro estava à frente. 15-9. O senhor Orlando, que controlava as entradas, já não os podia ouvir. Parecia que cada nova volta era a primeira. Sempre eufóricos, sempre aos empurrões, sempre aos gritos. Foi com alívio que os viu a afastarem-se em direcção à zona da esplanada.

Finalmente, sentaram-se numa mesa. Cada um a lamber o seu gelado.
- O enjoo passou-te rápido, seu mentiroso. Estás aí agarrado ao gelado como se não houvesse amanhã.
- Come o gelado e cala-te, Miro. Em que vamos andar a seguir?
- Hum... Pode ser nos Elefantes Voadores. Que dizes?
- Digo que és parvo.
Enquanto discutiam o que iam fazer nas horas seguintes, na mesa ao lado sentava-se um casal de estrangeiros. O homem era alto e magro. De pele muito branca e cabelo ainda mais. Parecia preocupado. A mulher, baixa e anafada, parecia mais alegre, apesar de vigilante. Trocavam sussurros numa língua que os primos não conseguiam entender. Sem saber muito bem porquê, alguns minutos depois, Casimiro e Lucas seguiam os dois "camones", como lhes decidiram chamar. O casal dirigia-se para as oficinas. O duo que os seguia, em conferência, chegou à conclusão de que «o esticadinho e a gordalhufa não andam por cá a fazer boa coisa». Algo de intrigante se passava ali.

Chegados ao local para onde se tinham encaminhado, começaram a engendrar um plano para se tentarem aproximar e perceber o que os "camones" estavam a preparar. O Pedro, sempre a cabeça do grupo, fitou as gémeas e disse...
- Oh! Avô, estás outra vez a trocar as histórias do pai com as de Uma Aventura.
- Ah!... Estou mesmo a ficar velho. A idade não perdoa.

20 de Abril de 2009

Casimiro e a Geração de 70

Como todos sabemos, Geração de 70 é o nome dado àquela que, entre 1865 e 1871, se afirmou como elite intelectual que promoveu um movimento cultural e literário renovador de funda repercussão no país. A Geração de 70, com o intuito de mudar a mentalidade retrógrada portuguesa, lá moveu umas palhinhas e deu seis conferências, as chamadas Conferências Democráticas do Casino.
Claro que o Mirinho não sabia nada disto. Conhecia-lhes o título (embora o número o intrigasse) e algumas personalidades que ali se encaixavam, como o "mestre" Antero de Quental, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Gerra Junqueiro e Teófilo Braga.
Foi naquele dia, uns valentes anos depois do seu auge conferencial, que a rapaziada da Geração, já mais gastos mas com os mesmos traços psicológicos (como iremos ver à frente), se juntou para a sétima Conferência, aquela de que ninguém soube.
Deu-se o evento em Coimbra, numa tarde sem vento e de agradável temperatura, no conhecido Jardim Botânico. Pois bem, estava tudo pronto: Junqueiro trouxe os rissoizinhos de carne e camarão, os bolinhos de bacalhau, os croquetes e os rolinhos de caranguejo; Eça, leviano caprichoso e provinciano, levou uns panados semicrus comprados no mesmo dia de manhã, no Lidl; Antero não cozinhava e, por isso, pediu à mãe para lhe fritar umas batatas; Ortigão levou os frutos secos.
Posta a toalha, que, juntamente com os guardanapos, fora trazida por Junqueiro, e, em cima, o material necessário ao desenrolar da mente (leia-se comida), os intelectuais repararam na falta de duas coisas: uma menos grave, que seria Teófilo, que, chegando duas horas depois, apresentou a desculpa de ter pernoitado em Braga; e uma mais grave, que seria algo que jamais poderá faltar na mesa de um português: bebida. A Geração ficou chocada e, claro, começou a pensar num método de salvação fácil que não exigisse ir ao mercado à saída do jardim comprar umas garrafinhas de vinhaça escura.
Mas, agora, perguntam vocês: o que tem isto a ver com Casimiro?
Pois bem, o Miro, que andava por essas alturas por Coimbra (já não me recordo a fazer o quê), calhou de estar a dar uns giros pelo Jardim Botânico. E, melhor das coincidências, com uma garrafa de vinho tinto na mão direita, que ele degolava com todo o prazer e mais algum, e outra na mão esquerda, guardada para quando a primeira calhasse de acabar.
As teorias de salvação dos vários membros variavam um pouco. Ramalho Ortigão defendia um método todo XPTO que incluía uma máquina a vapor e um robô telecomandado; Eça defendia algo muito mais fácil, em que alguém que não ele se levantava e ia comprar a garrafa, e depois pagava para lha virem trazer; já Antero dizia que, por si, mais valia telefonar à Telepizza a perguntar se entregavam vinho.
No entanto, não foi preciso dar asas a nenhuma dessas especulações, pois Teófilo, após olhar durante dez minutos para um sujeito que cambaleava ao de leve, apoiando-se muito na perna esquerda, com duas garrafas na mão, lhe reconheceu a figura de Casimiro, o Astro.
- Senhores, estamos salvos, estamos salvos, senhores!
- Que diz, senhor? – perguntou Antero.
- Cá para mim, deu-lhe o chilique – disse Eça com o nariz no céu.
- Senhores, estamos salvos, estamos salvoooooos, senhores!
Não teriam chegado lá com a ajuda de Teófilo Braga. Foi, então, Ortigão, o protector, que avistou Mirinho lá ao longe.
- Senhores, vislumbro no horizonte um vulto... Um vulto salvador, carregando com ele a água da salvação nas duas mãos, senhores. E ele, ele caminha para nós!
- Kawaii! – exclamou Junqueiro com euforia.
- Que evento gratificante, não é assim, senhores? – deixou-se Antero dizer.
Miro, apesar da quantidade de pó que os seus olhos viam no jardim, avistou a Geração muito bem estacionada num tapete voador aos quadradinhos vermelhos e brancos, todos de vista presa nele. Na altura, pensou: «Eu sou giro, mas não vos quero.»
- Casimiro! Ó Casimiro! – chamaram.
- Eh! Camaradas!
A verdade é que o Mirinho não é burro nenhum! Sabe ele muito bem que quando nos convidam para partilhar a mesa ou o transporte, que dessa vez parecia uma modernice dois em um, há que cumprimentar os companheiros. Dessa forma, diz ele:
- Quintal, usa chapéu na horta, que já te vejo rugas! Eças, essas moças bonitas têm dentes iguais! Ortigas, aposto que trouxeste frutos! Praga, olha o fio de mel que te cai na roupa!
E, esforçando-se para olhar com mais atenção:
– Guerras... Pareces uma casa, pá!
Os senhores ficaram um pouco tocados pelas palavras saloias de Miro. Mas, ultrapassando isso, a Geração, tal como lhe convinha, sentou um Miro alegre na toalha, completando mais o circulo que faziam em volta da comida.
- Ena! O tapete voa mesmo – disse logo Miro, abismado. – Mas, ó senhor, ordene-lhe lá para que não voe em círculos.
Dito isto, Antero espeta-lhe logo um panadinho boca adentro.
- Senhores, estamos salvos, estamos salvos, senhores! – Teófilo ainda agitava os braços às nuvens brancas pela visão do Astro lá ao longe.
- Senhor Casimiro, junte-se ao nosso banquete e celebremos a felicidade no mundo transcrita sob a forma de cultura, inteligência e criticismo – dizia Antero, esperando que o barro colasse à parede.
- Bota!
Casimiro não esperou que lho dissessem duas vezes e, pousando as duas garrafas, serviu-se de tudo um pouco. A Geração, satisfeita com a artimanha, sorriu entre si. Eça, que pegara na garrafa aberta, fez beicinho ao descobrir que já tinha acabado. Baixinho, fez conhecer aos colegas a situação, acabando com um desesperado «só resta uma garrafa para nos molhar a garganta, senhores». Assim, pegando em copos de plástico, a Geração dividiu o conteúdo irmãmente entre si, exceptuando Miro, que ficaria com o copo seco.
- Brindemos, senhores! – propôs Antero.
- Brindemos! – disse o coro intelectual, levantando os copos.
- Hurra! - exclamou o Astro, feliz.
Aí, Mirinho abre as calças, pega na garrafa escondida atrás do gémeo da perna direita, tira a rolha com o polegar quase sem esforço e, pondo a garrafa na horizontal e enfiando-a na boca, pensa «chau Laura, olá pinga!». A Geração, estupefacta, fica com os copos suspensos e, de olhos arregalados e presos no Astro, vê-o acabar o tinto maduro e, logo de seguida, cair em cima do fabuloso banquete, destruindo a refeição.
Os senhores, de estômago vazio, pensam na sua infelicidade e, com uma última pinga de conformação, pronunciam: «À sétima Conferência do Casino, aquela de que ninguém soube!» Dito isto, bebem o conteúdo de um gole.

- Senhores, estamos salvos, estamos salvos, senhores!

13 de Abril de 2009

Casimiro esqueceu-se de tomar o pequeno-almoço

Pum!
Casimiro levou um soco tamanho, que fez tremer a terra, estilhaçou os vidros dos prédios e carros à sua volta e o projectou dezenas de metros para a frente, contra um camião-cisterna, que explodiu com o impacto e o projectou de novo, desta vez para o caralho mais velho, centenas de metros acima de Metropolis. Depois de se recompor, o Astro pairou uns segundos no ar, vendo a devastação que o Apocalypse causara à cidade. Por todo o lado se via fumo e ruínas. Por todo o lado se ouvia gritos, e também alguns rugidos e explosões. Casimiro viu o helicóptero do Planeta Diário a seguir de perto o rasto do Apocalypse. Lá dentro iam Lois e Jimmy, a fotografar o que podiam do monstro. Casimiro indagou-se se no dia seguinte ainda haveria Planeta Diário para imprimir aquela notícia.
O Astro sangrava por todos os lados, apesar da sua pele à prova de bala. Tinha o uniforme azul todo rasgado e, da sua capa vermelha, pouco sobrava. Isto não o preocupou, uma vez que logo a seguir voava a pique, em direcção ao seu némesis. Percorrendo centenas de metros em menos de um segundo, Casimiro concentrou o seu ataque numa cabeçada colossal no que pensou serem os tomates do Apocalypse, mas que descobriu serem inexistentes, para seu grande espanto, enquanto o monstro lavrava a grande avenida de Metropolis de uma ponta à outra, devido à força do embate. Casimiro não perdeu tempo a pensar porque raio decidira dar-lhe uma cabeçada nos tomates, pois a sua mente questionava antes como é que Apocalypse conseguia destruir tudo o que encontrava com tamanha falta de virilidade. Usar gajas nuas para o distrair estava fora de questão.
O segredo para o distrair cedo se descobriu, quando Casimiro foi dar com o Apocalypse dentro do McDonald's, engolindo cheeseburgers como se de tremoços se tratassem. Vangloriando-se por ter arremessado Apocalypse para o sítio certo, o Astro preparava-se para lhe dar um forte pontapé no cu quando, inesperadamente, o monstro larga um estrondoso peido, cujo cheiro atingiu Casimiro mesmo na cara. O nosso herói não teve tempo sequer de vomitar ou de indagar-se se o Apocalypse tinha comido mesmo cheeseburgers ou kryptonite, pois o gás flatulento expelido pelo ânus do monstro inflamou-se instantaneamente em contacto com as várias faíscas que saltavam pelo destroçado sítio, explodindo com tudo num raio de um quilómetro.
- CONNNNNNAAAAAA!!!!!! – berrou Casimiro. - Nem a kryptonite dói assim!
Desta vez, o Astro fora projectado para os subterrâneos de Metropolis, ficando soterrado nos túneis do metro. Usando a sua visão raio-X, o nosso herói viu o helicóptero do Planeta Diário, onde seguia a sua amada Lois, a cair a pique, pois as suas hélices tinham sido destruídas por estilhaços da explosão. Num acesso de raiva, Casimiro furou as toneladas de destroços que o cobriam e, em menos de um segundo, impediu que o helicóptero se despenhasse.
O Astro obrigou os seus amigos a fugirem dali, mas Lois não queria deixar o seu desventurado amado sozinho naquela batalha cujo fim não se avizinhava.
- Vai-te embora, mulher! É agora que eu vou dar cabo daquele caralho! - dizia-lhe Casimiro.
- E se for ele a matar-te, Miro? E se for esta a última vez que te vejo?! – gritava-lhe Lois, num ataque de choro e desespero.
E, de seguida, ajoelhou-se à frente do nosso herói, baixou-lhe as cuecas vermelhas, depois baixou-lhe os collants azuis e, pegando-lhe no sexo com a boca, começou a fazer-lhe um felácio tão intenso como se o mundo estivesse a acabar.
Casimiro nem queria acreditar. Metropolis estava a ser toda destruída, o Apocalypse aproximava-se, e ele estava a receber o melhor sexo oral que alguma vez recebera. Ainda melhor do que da outra vez com aquela prostituta exótica, debaixo do viaduto da Trindade. Estava a ser tão bom que o Astro nem quis que ela parasse quando viu o Apocalypse a aproximar-se cada vez mais e teve de usar a sua heat vision para travar o avanço do monstro.
A sorte jogou a seu favor quando o Apocalypse pisou um poio de cão e, praguejando nos seus rugidos incompreensíveis, parou um pouco para raspar o pé no passeio. Isto deu tempo a Lois para uma investida ainda mais intensa no sexo de Casimiro, que, já não vendo nem ouvindo nada, berrou perante a aproximação do seu clímax. Casimiro estava praticamente a ter o tão esperado orgasmo. Era uma questão de segundos... 3... 2... 1...

- Miro! Acorda, filho! Vais chegar tarde à escola! – berrou a mãe de Casimiro, à porta do quarto onde ele dormia.
- Foda-se! Estava ter um sonho tão bom e tinhas de me acordar para a escola – lamentou-se o Astro, reparando na erecção com que estava, ao que a sua mãe disse:
- Tem tento nessa língua, garoto! Aposto que estavas a sonhar com coisas porcas.
Casimiro nada disse enquanto se dirigia para a casa de banho. No chuveiro, o Astro pensava no sonho que tivera, na estupidez de haver um monstro a destruir tudo e no felácio que recebera de uma rapariga parecida com a Erica Durance. «Parecia mesmo real», pensou o Astro, desapontado.
Ao chegar à cozinha, a sua mãe começou logo a berrar-lhe:
- Já vais chegar tarde, Miro! És sempre a mesma coisa, dormes até à última da hora!
- Não sejas chata, mãe. Sabes que eu consigo chegar sempre a tempo – disse o Astro, saindo pela porta e levantando voo em direcção à escola.

6 de Abril de 2009

O primeiro beijo de Casimiro

A notícia revoltara-o. Mesmo não sendo sequer capaz de citar uma música da mítica banda de Seattle, Casimiro decidira reagir com intensidade ao trágico falecimento daquele senhor loiro meio rouco que usava sempre roupas do avô, já desgastadas. Afinal, não se falava de outra coisa, e o Astro, como sempre, limitou-se a fazer os possíveis para acompanhar a onda.

Apesar de ter noção de que o seu pai evitava a todo o custo pegar nele por causa de um problema qualquer que nunca entendera bem, mas que fazia com que o depósito do raio do carro tivesse de ser atestado a cada cinquenta quilómetros, o ainda imberbe - não considerando a tímida penugem que começava então a despontar no seu buço - Casimiro meteu mãos ao volante do velhinho Ford Fiesta verde-esmeralda que já quase nem verde era, quanto mais esmeralda, e, na sexta-feira seguinte, uma semana após a descoberta do corpo do malogrado vocalista, fez-se à estrada rumo àquele que prometia ser o maior castigo de sempre. Na verdade, o seu destino era Rio Maior, a tão proclamada capital portuguesa do grunge - ou mesmo capital do grunge português, fosse lá isso o que fosse.
Toda a semana fora passada a fazer planos. À falta de patrocínio para o combustível, dado o secretismo da missão, o Astro viu-se forçado a partir o felizmente bastante recheado porquinho-mealheiro. Por regra, tratava-se de um ritual bastante delicado; porém, dado o adiantar da hora, não havia tempo para grandes mariquices: eram quase seis da tarde, os seus pais estariam certamente prestes a chegar a casa, e ainda nem tinha arrumado todo o material necessário na mochila. Colocou o porco cor-de-rosa num canto do chão do quarto e, sem grandes hesitações, arremessou o denso pisa-papéis que recolhera da secretária do pai na sua direcção. Retirados todos os escudos e todos os centavos do meio dos destroços, encostou os cacos à parede com o pé e tapou-os com a cortina da janela. De Montecampo ao ombro e cantarolando uma música que, na realidade, era dos Erasure, pegou nas chaves do Fiesta e partiu à aventura.

Casimiro estava bastante desorientado. Esquecera-se do relógio em casa (e o do carro há muito que deixara de funcionar), pelo que não fazia ideia de que horas seriam. Mas era tarde. Definitivamente, era muito tarde. Escurecera ainda antes de ele se perder pela sétima vez. A fome também apertava, dado que só ingerira as bolachas Chiquilín que levara consigo, mas o importante era ter conseguido: acabava de chegar ao parque de estacionamento da concentração de fãs dos Nirvana, no meio do monte, em plena freguesia da Marmeleira.
Caminhou relutantemente em direcção à luz, possivelmente oriunda de uma grande fogueira, que avistava algures ao fundo, lá em baixo, iluminando o melhor possível o chão à sua frente com a fraca lanterna que transportava. O seu espanto foi indescritível: diante dos seus olhos, vários milhares de pessoas alinhavam-se organizadamente no chão de uma vasta clareira. Então, aquilo é que era uma vigília. Atentando melhor, reparou que toda a gente tinha uma vela acesa pousada à sua frente - Casimiro não possuía nenhuma! Tentou não chamar as atenções para si e contornou a massa humana ali prostrada, encaminhando-se para o local onde avistara meia dúzia de rapazes na conversa, junto ao arvoredo do outro lado, afastados daquele cenário místico.

Se tudo se tivesse passado alguns anos mais tarde, o Astro teria sido capaz de desvendar os acontecimentos daquela noite logo no dia seguinte, quando o cérebro despertasse. No entanto, a ingenuidade da sua parca idade impediu-o de desconfiar daquele rolinho branco a arder numa ponta que, ao som de Lithium, lhe disseram para meter na boca. Casimiro lembra-se de se rir, de se rir muito. Lembra-se também de que, no grupo, havia um rapaz mais ou menos da sua idade com quem se fartou de falar. O rapaz em questão chamava-se Carlos. Mas Casimiro não se lembra do resto.

30 de Março de 2009

O legado do Casimiro não fumador

- Olha, desculpa...
- Sim?
- Tens lume?
- Não, desculpa, deixei de fumar. Prejudica o esperma e pode ainda afectar a saúde do meu bebé!

Não conseguia tirar a voz dela da cabeça. Nem o seu olhar... Nem a cara de espanto que ela fez quando ouviu a resposta.
Casimiro esfregava ainda intensamente a cabeça na almofada, cabeça essa que parecia pesar meia tonelada. E pesava, tal era o arrependimento de ter bebido naquela noite, como acontecera, aliás, em muitas outras noites. Mas desta vez tinha uma miúda, a miúda na cabeça. A voz dela, o toque no ombro de que ela se serviu para lhe chamar a atenção, o seu olhar... E, novamente, a cara de espanto quando ela ouviu a maldita resposta. MALDITA!
«Não bebo mais», pensou.
Saiu da cama, com muito custo. O crânio pendia para trás e para a frente. O despertador, já velhinho, marcava 11:37, ainda hora para um chamado "pequeno-almoço". Quase que rastejou até à cozinha. Cambaleava, desequilibrado, encontrando apoio numa ou noutra parede.
Sobre a mesa, uma taça de vidro, religiosamente conservada pela mãe, que, desde que ela falecera, já se quebrara duas vezes. Morde uma maçã, agrada-lhe, devora-a vorazmente, até metade, e depois deixa-a no lava-loiça. No frigorífico, uma cerveja já aberta, que ele decide beber e, posteriormente, arrepende-se. Aparentemente saciado, senta-se no sofá da sala, já com os devidos exercícios de aquecimento feitos, para uma sessão de zapping matinal.
Não é novidade que na maldita televisão não se vê outra coisa que não mulheres que fazem o mundo parecer um local maravilhoso para se viver. E a memória da miúda volta...

Encontra-se com o Jorge e com a Vader no Groove para um café depois do jantar. Vader não hesita em soltar uma gargalhada gutural, que faria inveja a qualquer Wookiee, ao saber da história d'a miúda, história esta melancolicamente deformada por Casimiro para que se fizesse notar o seu arrependimento. Tinha deixado de fumar pelo bem da sua saúde e da dos seus amigos, dizia ele, mas eles sabiam que o tabaco não era barato, e até Casimiro, que achava que o dinheiro só tinha valor se fosse trocado por algo de útil, sabia que a utilidade deveria ser relativizada.
E como uma dessas coincidências que só acontecem em telenovelas, ou, até com alguma frequência, na vida do Astro, a miúda passa em frente ao Groove.
Caracóis negros, olhos castanhos, olhar despreocupado, lábios de um encarnado que se adequava perfeitamente ao seu tom de pele, cigarro na mão esquerda. Vestia uns jeans e um top comprados num qualquer retail park e umas All Star excessivamente gastas. Caminhava com duas amigas, nas quais o Astro nem se deu ao trabalho de reparar. Passou como que em câmara lenta e, de tão distraída que estava, embateu contra a paragem de autocarro que, pensava o nosso herói, tinha surgido do nada para estragar aquele momento.
O tempo recuperou o seu ritmo normal. Casimiro levantou-se rapidamente e correu para o balcão. Gastou os últimos 5 euros que lhe restavam num maço de tabaco e num isqueiro. Sentou-se novamente com os seus amigos e acendeu um cigarro, pondo, assim, fim a dois dias de uma vida de não fumador.
Casimiro e Vader olharam-se por instantes; ambos sabiam exactamente o que cada um estava a pensar.

23 de Março de 2009

Casimiro acorda para a vida

Era mais um daqueles dias primaveris em pleno mês de Março. Depois de uns dias de férias, Casimiro tinha agora de voltar para a universidade. Iniciava-se mais um semestre da sua vida escolar.
O semestre anterior não tinha corrido nada bem, e Casimiro, que até não se andava a sair nada mal no seu caminho universitário, conseguira concluir com sucesso apenas uma cadeira. A verdade é que ele e Zezerina tiveram uma zanga séria, acabando por terminar uma relação fascinante que vinham mantendo há já muito tempo.
Foram seis meses penosos, em que o Astro nada mais queria fazer senão passar todas as horas, cada minuto, sem perder nenhum segundo, a dormir e a chorar. Mal comia e quase nunca lavava os dentes. «Para quê?», pensava.
Mas as coisas tinham de mudar. Ele tinha de animar o ego e voltar a mostrar-se ao mundo. Afinal, Zezerina não era com certeza a única rapariga a conseguir amar um rapaz como ele. Assim, finalmente, Miro começou a reagir. Voltou a alinhar em saídas com amigos, em jogos de sueca e até, sem notar, voltou a reparar noutras raparigas.

Mais três meses se passaram, e tudo corria de vento em popa. Desde que resolveram seguir em frente, Miro e Zezerina tinham cortado relações. Deixaram de querer saber um do outro, e isso estava a fazer-lhe um bem danado. O Astro voltou a ser quem era antes daquele bailarico de Verão, agora tão longínquo e remotamente recordado.

Eis que o dia chegou. Mais um semestre volvido, e o nosso herói vê-se a ficar de férias.
O presente ano fazia-se destacar dos anteriores pelo perfeito encaixe do tempo com a estação correspondente. (Algo que não acontecia há uns valentes anos.) Assim sendo, os meses seguintes seriam passados por Portugal. A aproveitar muito aquele solzão. Sem preocupações. Sem nada.
No fim-de-semana seguinte, tinha presença confirmadíssima em mais uma daquelas festas de Verão que os seus amigos tanto gostavam de organizar. No entanto, esta não era uma festa normal. E o Astro sabia. Sabia que, depois do jantar, depois de alguns copos em casa de Zé Tony, a festa continuaria no bailarico de Verão, em homenagem a um santo lá da terrinha. Facto que fazia com que Casimiro ficasse algo apreensivo, pois estas festividades recordavam-no de Zezerina e de todo o encanto em que eles sempre estiveram envolvidos.
Mas era hora de ultrapassar também isso, de passar por essa provação. E foi assim que Miro se despiu de todos os seus receios mais íntimos e, naquele sábado, se preparou a rigor. Sem saber, e sem que fosse sua intenção, Casimiro era o rapaz mais giro do recinto. Não reparou que, enquanto ia rodando como uma bola pelas amigas com quem saíra, numa dança desenfreada ao som de Mickael Carreira, se tinha tornado no centro das atenções de todas as moças jovens que lá se encontravam. No entanto, não demorou muito para que o Astro se começasse a sentir observado e, até, assediado. Sentiu-se mal. Sentiu-se a deprimir. Fugiu.

Já bem longe do barulho da festa, Casimiro deixou de correr. Sentia-se confuso. Não entendia bem o que se tinha passado. Só sabia que queria estar sozinho. Num sítio calmo. E, sem que desse por isso, os seus pés dirigiram-no para o lugar mais romântico e calmo que ele conhecia e onde tantas vezes havia permanecido horas e horas apenas a olhar bem fundo nos olhos da sua amada, Zezerina.
Embrenhado nestes pensamentos, não se apercebeu de que alguém se aproximara. Um leve restolho sobressaltou-o. Pos-se em pé de um pulo e deu de caras com a mulher mais linda com que alguma vez se cruzara. Os seus olhos viam Zezerina, os seus ouvidos percebiam outra coisa:
- Olá, eu sou a Luísa.

20 de Março de 2009

Início da segunda temporada

Depois de meses à espera, os fãs do nosso herói podem berrar o sentido «aleluia!» que lhes está preso na alma. Falta mesmo muito pouco tempo para o regresso do Astro... Faltam - tcham, tcham, tcham, tcham! - apenas três dias!

Sim, a segunda temporada das aventuras de Casimiro, o Astro arranca já na próxima segunda-feira. Daí, já terão percebido certamente que o dia de publicação das histórias se mantém, e o mesmo acontece com a sua periodicidade, que permanece semanal. No entanto, convém relevar desde já um detalhe muito importante: esta será uma minitemporada, de apenas seis episódios. O motivo para isto ser assim é simples: a alternativa era o blogue continuar parado durante mais alguns meses, dado que os planos passam por uma reformulação de fundo a vários níveis, e tal foi impossível de concretizar até ao momento. Portanto, para matar saudades e provar que o projecto não tinha morrido definitivamente, os contos voltam temporariamente.

Todos os episódios desta temporada estão já escritos (e pode adiantar-se que daremos as boas-vindas a dois novos autores ao longo das próximas seis semanas), mas, se estiverem para aí virados, sintam-se à vontade para rabiscar novos capítulos para temporadas futuras - serão sempre agradecidos.