29 de Setembro de 2008

Casimiro admirado...

O dia nasceu chuvoso e Casimiro ainda não tinha tido vontade de se levantar do colchão. Passava já hora e meia desde que o despertador tocara, mas os lençóis pareciam mais confortáveis do que qualquer outro sítio do mundo. De qualquer maneira, a futebolada, que devia estar a jogar, estava automaticamente desmarcada tal era o dilúvio na rua.
Nada lhe custou mais do que ter de saltar da cama depois de ouvir o seu pai a gritar da cozinha: «Ó Miro, anda cá, que o Joca Sapateiro deixou uma carta para ti.» Afinal de contas, estava de férias e podia dormir até quando lhe apetecesse. Ainda para mais, estando o Natal a aproximar-se, o tempo - como quem acompanha a quadra - parecia decidido a atingir valores negativos, e isso não puxava nada a qualquer saída para a rua.
Chegado à cozinha, não pôde deixar de reparar no ar de gozo com que o seu pai o presenteou.
- É esse envelope cor-de-rosa cheio de corações. Nem remetente tem. Estás bonito, pá!
Envergonhado e, ao mesmo tempo, bastante excitado, o Astro correu para o quarto já a abrir o envelope com muito cuidado. Mal começou a retirar o papel que se encontrava lá dentro, sentiu um intenso cheiro a perfume. Achou a ideia bastante sensual, mas também achou o aroma do perfume bastante estranho. Começou a ler:

Olá Mirinho,
Há muito que ando para te dizer isto, porém a coragem não abunda por estes lados. Gosto tanto de ti e ao mesmo tempo tenho tanto medo de te dizer. Declaro-me assim, porque achei que seria a forma mais fácil. Cabe-te agora a ti decidir se queres saber quem sou ou não. Estarei, na sexta, às 10h, em frente à porta do Groove com um casaco rosa e uma bandolete da mesma cor. Até lá (espero eu).

Beijos... C...

Casimiro releu a carta umas dez vezes e continuava sem acreditar que aquilo lhe estava a acontecer. Decidiu que iria ao encontro, fizesse chuva ou fizesse sol. Se havia uma rapariga interessada nele, só tinha que aproveitar. Desde que se tinha iniciado sexualmente com a sua prima, há cerca de um ano, que andava mortinho por repetir o acto. Tinha prometido a si mesmo que havia de voltar a apanhá-la. Dessa vez, com mais jeito e mais experiência.

Ainda não eram nove horas de sexta e já o seu despertador berrava com vontade. De nada lhe valeu mostrar tanto serviço. O Astro já estava acordado há mais de uma hora. Já tinha visto e revisto a roupa que ia levar, os sapatos, o perfume, e até já tinha andado pelo jardim a estudar as roseiras do seu pai.
Quinze minutos antes da hora marcada, saía porta fora. Rosa vermelha numa mão, guarda-chuva da Abelha Maia na outra. Ia cheio de medo e entusiasmo, mas não vacilava um passo. A chuva não era muito forte, mas, mesmo que fosse, não iria ser água a dar cabo do encontro. Chegado à porta do Groove, quando faltavam cinco minutos para a hora marcada, não viu ninguém. Nem a rapariga de casaco e bandolete rosa, nem qualquer outra pessoa. Colou o nariz na montra do bar e espreitou lá para dentro. Ninguém. Nem mesmo o Eric. Devia estar na arrecadação. Sentiu uma mão tocar-lhe no ombro. Sentiu também a temperatura do corpo a subir. Sentiu ainda uma respiração ofegante no pescoço.
- Casimiro, meu amor, sempre vieste.
O Astro congelou. Conhecia bem aquela voz. Não queria acreditar na sua sorte. «Carlinhos? O paneleiro? Só a mim!»

1 reacções:

saves disse...

LOL. Duas palavras para ti: de-mais. Só tu.