5 de Fevereiro de 1997.
- Miro, acorda!!! Não te podes atrasar. Anda, filho, hoje é um dia importante. - Madalena tinha acordado visivelmente nervosa. Hoje, o seu primeiro e único descendente realizaria a segunda eliminatória das Olimpíadas Portuguesas de Matemática. Ao contrário dela, Casimiro não se mostrava minimamente entusiasmado. Desde que a professora Luísa desaparecera do seu mapa, tudo o que estivesse relacionado com Matemática deixava-o relutante e bastante desgostoso. Após ter tomado um pequeno-almoço reforçado e revigorado a alma com um banho de água bem quente, o Astro decidiu que era hora de falar com a sua mãe e dizer-lhe que não queria participar nas provas. Estava convicto de que iria conseguir demolir qualquer argumento que a sua progenitora apresentasse. Todavia, bastou a esta expandir as suas pálpebras e lançar-lhe um olhar mortífero para Miro perceber que não tinha escapatória: ele iria mesmo participar naquelas olimpíadas que envergonham as Mundiais.
À semelhança do que acontecera da primeira vez, Casimiro reparou que não havia uma única rapariga minimamente bonita naquela sala. Era muito azar acumulado. Às nove horas em ponto, toda a gente começou a fazer a prova. Bem, toda a gente menos o Astro, que, mais uma vez, não se sentia apto para solucionar qualquer problema. Este género de competições não era, decididamente, o seu forte. Reparando que o tempo começava a escassear, Miro estava decidido a não deixar a folha em branco. Primeiro, começou a delinear bonecos em posições menos próprias e portadores de uma flexibilidade fora do normal; passou, de seguida, para os desenhos abstractos; e, quando começou a esboçar a caricatura do seu colega da direita, ficou absorto a olhar para aquela aparição: a professora Luísa estava ali, à sua frente. Casimiro não conseguiu perceber se estava a delirar ou se era mesmo verdade e, numa fracção de segundo, acabou por desmaiar.
Dois minutos e trinta estalos na cara revelou-se o necessário para acordá-lo de um sono profundo. O Astro encontrava-se bastante confuso e não entendia o que se tinha passado, mas podia jurar que tinha visto a professora dos seus sonhos. Descreveu-a como um anjo descido do céu, sob uma veste branca comprida e com uma luz brilhante à sua volta. «Dah, Miro, essa é a Nossa Senhora! Agora, estás feito pastorinho, é?» Venceslau, seu colega de escola, estava a achar tudo aquilo ridículo. Era lógico que Casimiro estava com alucinações, pois só isso poderia explicar o seu comportamento. Não havia espaço para dúvidas. Embora, nessa manhã, muitas pessoas tivessem recorrido à argumentação lógica, a verdade é que aquela percepção visual tinha sido tão clara e intensa que Casimiro, ainda hoje, acredita plenamente que a professora Luísa esteve à sua frente para iluminá-lo. De nada serviu. Ele acabou por não passar à eliminatória seguinte.
15 de Setembro de 2008
O par de contas de Casimiro (Parte II)
Texto de
Marta Amorim


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