Nem durante o sono se safava. Aqueles sonhos... Que sonhos eram aqueles?
Sexta-feira. Dia de reunião. Aliás, noite. Noite de sexta-feira, noite de reunião. Noite de reunião no Groove. Groove fechado (o avô do Eric falecera na quinta à tarde, vítima de uma trombose). As coisas, assim, não encaixavam. A cabeça latejava de uma forma particularmente atroz, e o telefone tocou. Nesse preciso intante.
- 'Tou?
- 'Tou, Miro, como é? Olha, hoje vamos para o Oceano 37 Graus Farenheit. Que me dizes? Combinado?
O Astro respondeu afirmativamente, mas agoniado. «Bonito», pensou. Na verdade, não era bonito. Não era nada bonito. Mas Casimiro estava a ser sarcástico. Casimiro estava a ironizar perante a fúria incontrolável que a entidade vulgarmente apelidada de Vida decidira desferir contra ele naquela semana. «Bonito.» É claro que não era bonito. Não era mesmo nada bonito. O Oceano 37 Graus Farenheit não era só o café com o nome mais improvável da História. O Oceano 37 Graus Farenheit era também o café situado no local mais improvável da História.
Faltavam apenas cerca de vinte minutos para a hora habitual. Apesar de, no telefonema, o Jorge não ter referido horas, ou talvez por isso mesmo, o Astro presumiu que fosse para se encontrarem às onze. «Estou bonito, estou bonito...», murmurava para si mesmo. Mais uma vez, o cérebro de Casimiro não estava a ser literal. Assim sendo, ninguém lhe pode negar a razão, dado que, para ir até ao Oceano 37 Graus Farenheit, Casimiro só dispunha de duas opções. E ir a pé não era uma delas.
Resolveu tentar uma abordagem de reconhecimento. Aproximou-se dos pais e informou-os de onde iria naquela noite. A resposta da sua mãe foi a do costume. (Que é como quem diz: «não chegues tarde», juntamente com todos os outros conselhos que nunca convém deixar de relembrar a um adolescente.) O seu pai, do outro lado, permaneceu calado. De certa forma, isso constituiu igualmente a resposta do costume.
Cautelosamente, o Astro explanou o seu barbicacho, recorrendo à imprevisibilidade do tempo naquela noite (as nuvens no céu eram, realmente, muitas e escuras) para desculpar a sua falta de vontade de caminhar. Contudo, rapidamente se apercebeu do seu tiro ao lado e rectificou o que dissera.
- Mas, mesmo que não chova - Casimiro sublinhou bem estas palavras -, não sei se será grande ideia andar por aí a pé a altas horas da noite... - O Astro virou-se para a mãe. Sabia que estas palavras iriam causar impacto na sua sempre imensa preocupação. Mas sabia igualmente, pois tinha reparado no seu semblante a ficar carregado, que o pai já o estava a topar. Decidiu arriscar o seu último trunfo:
- O papá podia dar-me boleia e depois ia lá buscar-me, mais logo...
Resultou.
Eram 23:03, e o Astro acabara de se sentar ao lado de Jorge e defronte de um rapaz que conhecia de vista da escola. Na diagonal, Barnabé. A dupla-maravilha estava pronta para ganhar mais uma noite.
- Casimiro, baralha.
20 de Outubro de 2008
Casimiro baralha
Texto de
Fábio Vieira Fernandes


2 reacções:
n percebi...
Imprevisível até à última linha!
Muito bom, filho :)
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