Nervosismo. Casimiro já sentia as gotas frias do seu suor escorrer pela cara abaixo. Estava um calor insuportável debaixo daquele fato de borracha, completamente colado ao seu corpo. Já confundia a ansiedade com pequenas tonturas que o faziam ver a pista à sua frente completamente desfocada.
Respirou fundo, três vezes. Benzeu-se e rezou um Pai Nosso. Tal como o seu tio-avô o havia ensinado a fazer sempre que se sentia aflito. Garantiu-lhe que isso o acalmaria. E Casimiro acreditava nele.
Sentia-se apertado e um bocado desconfortável naquele pequeníssimo carro de Fórmula 1 que a sua querida Zezerina lhe tinha oferecido no mês passado, quando lhe saiu o Euromilhões. O Astro ia finalmente realizar o seu sonho e correr lado a lado com o seu grande ídolo: Pedro Lamy. Numa das pistas mais famosas do mundo: Monte Carlo, no Mónaco.
Pensar em tudo isto, se, por um lado, o deixava mais nervoso, por outro, fazia-o sentir-se grato e extremamente feliz por poder realizar aquele que era um dos seus maiores sonhos desde criança.
Não se podia esquecer de agradecer, de uma forma bem especial, à sua amada por tudo de bom que ela lhe dava.
Já sem ligar ao stress, já com uma atitude de aproveitar o momento e sem qualquer medo ou vergonha de ganhar o último lugar, Casimiro cuspiu nas mãos e agarrou-se ao volante. Curvando as costas sobre aquele, como se isso lhe garantisse que adquiria uma maior velocidade, o Astro concentrou-se na bandeira que indicava o arranque.
3... 2... Contava mentalmente o Miro... GO!
Sem hesitar, carregou no acelerador e fez-se à estrada.
Já não havia espaço para pensar. Os seus gestos já pareciam mais reflexos do que actos pensados. Não era ele quem mandava no seu cérebro. A primeira curva aproximou-se em segundos, Casimiro sentiu-se emocionado por tê-la conseguído ultrapassar sem um único arranhão.
Conhecia bem aquela pista. Sabia que muitos dos seus companheiros de corrida ficariam por ali. Para trás. Tramados por acidentes de outros. Ou não. Aquela tinha sido a sua oportunidade. Casimiro sentia-se orgulhoso, sentindo aquilo como uma primeira vitória.
O Astro não se estava a sair nada mal. Corria, literalmente, lado a lado com o seu ídolo. Aquilo bastava. Porém, algo o inquietava. Ele, o nosso amigo Astro, estava a conseguir fazer uma melhor prova do que o Lamy. Isto fez com que ele se sentisse envergonhado. Não podia deixar que aquilo acontecesse. Tinha que fazer alguma coisa.
Sem pensar mais, inconsciente, pois não calculou os riscos que aquela atitude traria, o Astro esperou a próxima curva e, com uma guinada brusca, bateu contra os placards da publicidade.
Não queria acreditar no que tinha feito. Havia arruinado um sonho. No entanto, saía dele com a cabeça erguida, não se arrependendo de nada do que tinha feito. Orgulhoso da sua estupidez.
Ao seu lado, os amigos, acabados de entrar, riam-se:
- GAME OVER, Miro?! És mesmo fraco.
6 de Outubro de 2008
Casimiro e as cartas do Tarot
Texto de
Ana Maria Cardoso


3 reacções:
O Lamy ainda corre? E eu a pensar que ele já tinha "arrumado o seu carrinho"...
Sim, ainda corre. Correu as 24h de Le Mans há pouco tempo. Vai participando em cenas assim.
Bom texto. Gostei :)
Mesmo que não corresse, eu não disse em que ano é que isto aconteceu. ;)
Tudo é subjsctivo nesta vida do Casimiro.
Enviar um comentário