- Casimiro, volta a dar.
Que raio. Era inacreditável o que se passava naquela mesa. A cara de Barnabé transparecia bem isso. A de Casimiro, por sua vez, transparecia tudo. Transtorno. Atrapalhação. Vergonha. Dor. Sofrimento. Incredulidade. Enfim, tudo. Mesmo tudo: talvez fosse possível descortinar inclusive contentamento ou júbilo no meio da complexa expressão corporal do Astro. No entanto, ele não sentia nada disso. Ele nem sabia bem o que sentia, na verdade, se é que sentia realmente alguma coisa.
Jogavam às cartas há pouco mais de uma hora e a afamada "dupla-maravilha" estava já a levar a maior cabazada de que havia memória. Jorge, a fazer equipa com Rodolfo, estava radiante como nunca. Rodolfo, um rapaz do décimo ano seu vizinho que substituía Eric naquela noite, ostentava um ar tímido, mas contente, e pouco alvitrava. Casimiro permanecia absolutamente mudo. E Barnabé, naquele momento, odiava toda e qualquer pessoa que dele se aproximasse. Depois de se fartar de resmungar com o Astro, até porque tal não parecia surtir qualquer efeito, decidiu limitar-se a dirigir-lhe olhares de profunda raiva, enquanto vociferava em direcção ao seu novo alvo. Jorge, a gabar-se o tempo todo da estrondosa vitória que estava a lograr, era assim forçado a ouvir os impropérios do seu amigo e adversário, que não se cansava de apregoar que tudo o que estava a acontecer era apenas demérito do seu companheiro.
Casimiro sentia que várias partes do seu cérebro se tinham zangado umas com as outras. Queria tentar organizar o seu pensamento. Queria tentar perceber o que raio se passava consigo. Não obstante, por mais que tentasse, não conseguia. Surgiu-lhe a ideia de beber qualquer coisa, a ver se ajudava. Chegou a ponderá-la seriamente, mas a sua consciência falou mais alto. Não podia. Nem era pela sua convicção em se manter sóbrio, a qual já mantinha, com sucesso, desde o fim das Queimas das Fitas. Já lá iam três dias. Simplesmente, não podia estragar tudo precisamente na noite em que, para não estar com o aborrecimento de o levar e ir buscar ao café, o pai lhe confiara a scooter pela primeira vez desde que fora apanhado a conduzi-la com uma mão. Desde que fora apanhado a conduzi-la com uma mini na outra mão. Desde que fora apanhado a conduzi-la com a vigésima sétima mini daquela noite na outra mão.
Mais uma jogada. Mais pontos, sempre para a equipa adversária. Barnabé partia, para mais outra.
- Chega!
Perante o ar interrogativo e confuso dos seus camaradas, o Astro limitou-se a vestir o seu casaco e a sair porta fora. Questionando-se levemente como tinha sido capaz de se levantar e percorrer aquelas dezenas de metros em passadas tão firmes, subiu para a sua motoreta e arrancou. Estava uma noite fresca. À medida que ia percorrendo as ruas desertas em direcção a casa, Casimiro ia também mentalizando-se de que se aproximava mais uma noite certamente angustiante. «Quem é que irá morrer hoje, nos meus sonhos?» Espirrou. «Devo estar mesmo a pegar uma daquelas... É desta que patino.»
E patinou mesmo.
Quando fazia a curva de um cruzamento para entrar na estrada nacional, o Astro perdeu o controlo da scooter. Entrou para a faixa contrária e, olhando em frente, só teve tempo de ser encadeado pelos enormes faróis. Os enormes faróis do camião TIR que já havia avistado ao aproximar-se do cruzamento e que, meio segundo depois, o colhia a cerca de setenta quilómetros por hora.
27 de Outubro de 2008
Casimiro volta a dar
Texto de
Fábio Vieira Fernandes


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Tu não mates o Mirinho!
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