10 de Novembro de 2008

Casimiro vê a luz

Era véspera de Natal. Dona Madalena ultimava pormenores. Em poucas horas, elementos da família iriam a parecer para a consuada. Todos os anos, uma das muitas irmãs recebia em sua casa o resto da família. Este era o ano dos Castro serem os anfitriões. Na realidade, não eram uma verdadeira família. Eram apenas um conjunto de mulheres que tinham sido criadas no mesmo orfanato e que tinham decidido viver bastante ligadas para o resto da vida. Casimiro e seu pai, como era normal, encontravam-se sentados em frente à televisão a tentar bater records de zapping. Do pequeno ecrã, saiam ora publicidades a carros, carrinhos e carrões, bonecas, livros, action figures, bolas e jogos de video, ora anúncios de filmes já passados milhentas vezes. O Astro suspirava. Não entendia porque tinha de estar em casa uma hora antes do horário combinado para achegada das tias. No entanto, tinha desistido de reclamar logo depois da primeira tentativa. Como era usual, ninguém podia falar com a sua mãe numa altura daquelas, muito menos se podiam aproximar da cozinha. «Saiam daqui, vocês só atrapalham...», era uma das frases mais ouvidas em casa, em dias de festa.
Sem mais paciência para aquele ambiente, Casimiro decidiu meter conversa com o seu pai:
- E o Benfica? Aqueles gajos...
Um tentativa sem sucesso. O pai, ou não ouviu, ou fingiu não ouvir. O Astro bufou e olhou para uma foto que se encontrava em cima da lareira da sala. Dentro da moldura estava ele ao colo da sua mãe com o seu pai ao lado. O cenário era um qualquer relvado que ele nunca reconheceu. Percebia-se que estavam num pic-nic. Nesse momento, uma estranha associação de ideias levou o Astro a soltar:
- Pai, conta-me o dia em que nasci.
Ao contrario da tentativa anterior, esta fez acender uma luz dentro do senhor Castro.
- Puto, tu nem imaginas o que eu passei naquele dia...
O seu pai adorava contar histórias. Adorava ainda mais prender as pessoas. Era normalíssimo ele fazer pausas a meio das historias esperando um comentário dos interlocutores. Claro que o comentário tinha que ser cheio de curiosidade e vontade de ali estar mais umas valentes horas a ouvir o senhor Castro. Casimiro lá ajudou o pai no seu teatrinho:
- A sério?! Conta-me, vá lá...
- Puto, eu e a tua mãe estavamos a dormir... quer dizer, eu estava. Ela já andava às voltas pela casa há hora e meia. Disse-me que estava com medo de me acordar, que tem medo do meu mau humor quando acordo. Eram 5h da manhã...
- Ei, que fixe, nasci de madrugada. Por isso é que adoro a noite. Hehe!
- Calma, puto, deixa-me acabar...
- Ok, desculpe.
- Bem, cinco da manhã e ela lá se decide acordar-me. Diz-me que lhe rebentaram as águas há uma hora atrás. Passei-me, claro. Acabou por lhe sair pior a emenda que o soneto. Obviamente, tinha que me acordar. Ouviu das que não queria. Só a tua mãe...
- Eu podia ter morrido!
- Cala-te... só dizes parvoíces. Bem, meto-a no carro e ala para o hospital da cidade. Chego lá já passava das 5:30. Não há parteiras de serviço. Toca a ligar para a Dona Palmira.
- Eia... foi a Dona Palmira a parteira? Aquela velha?
- Não, não foi ela. Foi a filha que vivia com ela na altura.
- Eu não a conheço.
- Pois não. Está para Lisboa agora. Virou médica a sério. Bem... ela chega já eram quase sete horas da manhã. O que vale é que a tua mãe esteve em trabalho de parto até ao meio dia. Se tinhas saído antes ia ser bonito... eu a ajudar no parto.
- Tu? Ia ser giro. Até me ria.
- Vá, vê lá se queres duas chapadas. Bem, era meio dia e cinco e começas a sair. A tua mãe já bufava por todo o lado. Já tinha apertado o pescoço a duas enfermeiras. Já me tinha batido a mim também e já tinha virado três garrafas de água.
- Fogo... que fixe, pai.
- Tu sais completamente. Todo cheio de sangue. Eras mesmo feio quando nasceste. Não é que agora sejas bonito, mas já foste bem pior. Aquele cabelo preto todo melado... até metias nojo. Bem... cortaram-te o cordão umbilical e mandaram-te duas sapatadas no rabo. Que berreiro... Começaste cedo a dar-me cabo da cabeça. Dois minutos de vida e já não te podia ouvir.
- Ei... fogo...
- Fogo nada. Ninguém te atura. Bem... onde é que ia? Ah, depois, nem cinco minutos depois, sai o teu irmão.
- QUÊ? MEU IRMÃO?
- Sim, teu irmão. O teu gémeo.
- IRMÃO GÉMEO?
- Fala lá baixo, puto. Vê lá se queres...
- Mas...
- Mas nada. E foi isto o dia do teu nascimento.
- E eu tenho um irmão gémeo?
- Sim, tens. Demos para adopção. Não podíamos ficar com os dois.
- E dizes-me isto assim e agora? Porque nunca me contaram antes?
Entretanto, a campainha toca.
- Tu alguma vez perguntaste, meu pastor? Vá, vai lá abrir a porta às tuas tias que eu estou a morrer de fome.

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