17 de Novembro de 2008

Sangue, Parte 5 de 10: Casimiro e o António

Estava uma tarde solarenga e um tipo qualquer estava sentado num ciber-café à beira da janela, enquanto devorava um blogue com fotos de mulheres nuas. Ao ler uns comentários de visitantes, deparou-se com a seguinte bizarria: "soub ka tua mãe morreu. Os meus pesames pah. Ta bem boa esta gaja k pusest aki lol hehe".
Nesse preciso momento, Casimiro passava no passeio, junto à janela. De headphones enfiados nos ouvidos e mãos nos bolsos, ostentando um ar acabrunhado, o Astro só pensava na noite anterior. Ele e Irene tinham feito amor. Nem sabia se podia chamar amor ao que fizeram. Ele amava-a, é certo. Como era certo que ela não correspondia. Quando o Astro se declarara, ela tinha frisado que nunca haveria nada entre eles. No entanto, a noite passada provara o contrário, e Casimiro devia isso ao facto de estarem ambos embriagados até aos ossos. Irene tinha razão para estar chateada, mas a atitude dela parecia-lhe bastante exagerada. Quando acordaram, ela saíra do carro a correr, sem dar tempo ao Astro de fazer ou dizer qualquer coisa, e durante todo o dia não respondera às mensagens nem atendera os telefonemas.
Casimiro tentou afastar estes pensamentos da cabeça. Já lhe chegava a dor de cabeça e as náuseas que sentia da ressaca. E foi então que o Astro contornou uma esquina e se deparou com um sem-abrigo que pedia esmola no passeio. O pobre velho não tinha pernas, sequela de uma guerra antiga, e Casimiro parou, comovido. Pegou na carteira e abriu-a, revelando uma nota de 5€ e outra de 20€. Tirou a de 5€ e deu-a ao velhote, afastando-se enquanto este se desfazia em agradecimentos e bênçãos. Mas o Astro parou de novo, pensativo. "Eu tenho duas pernas", pensou Casimiro. "E o desgraçado nem as pernas tem." Voltou para trás enquanto ia à carteira de novo, retirou a nota de 20€ e pousou-a no cesto do velhote, afastando-se depois perante um perneta completamente atónito.
Não sabia para onde iria agora. Tinha saído de casa com destino ao Groove, mas apercebera-se de que não queria estar parado em lado nenhum. Contornou outra esquina e entrou numa rua de comércio, sem trânsito. Passado um pouco, um rapaz a poucos metros à frente dele prendeu-lhe a atenção. Parecia ter a mesma idade que Casimiro e, tal como o Astro, caminhava de mãos nos bolsos, headphones nos ouvidos e ar acabrunhado. Curiosamente, tal como o Astro, também vestia um casaco verde com o número 26 estampado na frente. Casimiro encolheu os ombros e continuou o seu caminho, um pouco atrás daquele rapaz. A rua ia dar a uma avenida de trânsito veloz muito movimentada, e foi quando Casimiro estava a uns vinte metros da passadeira que ouviu uma voz familiar atrás de si:
- Miro! Espera aí, pá! – gritou a sua amiga Vader.
A Vader era das pessoas mais estranhas que Casimiro conhecia. Para além de ser lésbica, também era uma grande viciada em Star Wars. Recebera aquela alcunha precisamente pela sua obsessão. Em quase todas as conversas, ela fazia menção a um qualquer episódio ou personagem de Star Wars. Era também uma das raparigas mais bonitas que o Astro conhecia. Toda a gente se lamentava pelo facto de ter dado em lésbica. E todos se questionavam porque tinha aquela panca pela Guerra das Estrelas. Corria o boato de que a sua mãe andara metida nos cogumelos aquando da gravidez.
Casimiro sorriu enquanto observava a sua amiga estugar o passo na sua direcção. E foi então que o chiar dos travões de um carro ecoou pelo cruzamento e o Astro se voltou de repente, vendo um carro embater violentamente num rapaz vestido de verde que foi brutalmente projectado para a frente.
Nesse preciso momento, o tipo do blogue pornográfico saía do ciber-café e viu a coisa mais bizarra que provavelmente veria em todo o ano. Um velhote sem pernas ia pelo passeio, em cima de um skate novinho em folha, dando impulso com as mãos no chão. A felicidade era evidente no seu rosto.

1 reacções:

... disse...

Muito obrigada pelo comment :)

Boa escolha de textos *