3 de Novembro de 2008

A Viagem de Sonho do Casimiro

Casimiro estava contente. Já só faltavam algumas horas. Neste momento, em pleno Outono, umas férias vinham mesmo a calhar. A sua sorte... Quem lhe diria, no mês passado, que ao participar naquele concurso todo manhoso iria ganhar uma viagem de sonho, na companhia de três amigos à sua escolha e a um destino paradisíaco durante todo um fim-de-semana! Sentia-se eufórico... Qual sonho, qual quê! Aquilo era real e estava a acontecer.
A viagem de avião estava a correr muito bem. A turbulência era quase nula e ele não se sentia tão enjoado como pensara que se iria sentir. No início, ao sentir que o avião ganhava velocidade e se inclinava para o infinito, ainda se amarrou ao seu amigo Barnabé. Este deu-lhe a mão, apertou-a com força, e agarrou-se à senhora que estava ao lado... Os seus olhos quase lhe saíam das órbitas, tal era o receio que sentia. Os ouvidos do Astro estavam entupidos e a pressão era de mais. Raios - pensou - Ainda vais cair e eu não me despedi da prima Clara. Por fim, passou e pôde descontrair.
Agora, tudo estava bem. O avião aterrou com aquela pressão enervante, mas sem mais. Iam usufruir daquelas praias maravilhosas que viu nas brochuras. Com uma cerveja na mão, o Barnabé, o Jorge e a Vader já se estavam a divertir! Deu-lhes para correr de um lado para o outro no aeroporto. E era um aeroporto mini. Pequeno e ligeiramente para o degradado. Mas quem quer saber? Casimiro estava preocupado com outra coisa. Estavam ali há uma hora e as malas ainda não tinham aparecido. Duas horas. Aquilo já era estranho de mais. Duas e meia. Vá, é melhor sentar-me - pensou ele.
- Meu, e que tal irmos indo para o hotel? Já não há mais cerveja, pá.
O Astro olhou para o seu amigo Barnabé. Sem malas?! - pensou - Ora, que se lixe. Quem precisa de mudar de roupa?!
Bebendo um trago da garrafa, ainda meia, da Vader lá se fizeram à vida.
Aquilo era desértico. Palmeiras haviam. E areia. Muita areia. Aliás, aquilo era só areia. Quanto ao hotel, era de madeira. Ou algo muito parecido com madeira. Pelo menos lascava. Oh, - voltou a pensar Casimiro - quem quer saber? Desde que haja miúdas giras...
Nessa noite, após ter-se registado no hotel, assassinado uma centopeia que se encontrava na banheira do seu quarto de banho e uma barata que teimava em correr de um lado para o outro no chão do seu quarto, desceu até à recepção. Estava a anoitecer. Caramba, eram quatro da tarde e já estava a anoitecer?! Olhou para o relógio de cuco que se encontrava, meio torto, a um canto: 20:36. Deves estar a brincar... - pensou - já perdemos meio dia?!
De repente, o Barnabé entra a correr, seguído pelo Jorge, que se atrapalha e agarra-se ao amigo que ia à frente. Pumba. Dois corpos estendidos no chão da recepção ocupam mais de metade daquele espaço. O mal-encarado recepcionista, olha-os de esguelha. De seguida, a cambalear, Vader, que, sendo lésbica assumida, os acompanhava nas noites de engate, aparece com os braços abertos, no auge da sua alegria:
- Miro, my friend! Vai haver uma beach party! Muitas, muuuuitas chavalas!
O Astro ficou um pouco pensativo: Vá, ainda bem. Ainda não vi mais ninguém além de nós e o ogre da recepção. É um bocado sinistro. Não fosse eu um Homem e teria medo... Mas se há miúdas, vamos a elas!!!
Chegados à praia, a música tocava. No centro estava uma fogueira. Entre uns postes, lá colocados propositadamente, duas lâmpadas iluminavam muito mal. Mas quem queria saber? A música era contagiante e haviam pessoas. Gente. Gente divertida! Ainda não tinha visto nenhuma miúda que lhe chamasse a devida atenção mas ainda só agora começara a noite. Imitando o Barnabé, que já estava a encher pela segunda vez a sua taça desde que chegara, serviu-se de ponche. Um gole. Caramba! Os seus olhos arderam-lhe. Quanto álcool teria ali? Noventa por cento?! Mas era tão doce...
- Ei, Barnabé! Enche aí outra vez!
Bebendo a segunda taça, olhou em volta e viu-a... Que coisa mais linda! Os seus longos cabelos pretos como a noite bailavam ao sabor do vento, o seu corpo esbelto movia-se ao som da ritmada música, os seus lábios carnudos e brilhantes e os seus olhos negros cativaram Casimiro. Reticente, dirigiu-se a ela. Ela olhou-o e sorriu-lhe. Que belo sorriso tinha ela... Emudecidos, concentraram-se, tacitamente, numa e noutra dança. Tinha um olhar hipnotizante. E o ponche adoçava-lhe a boca. Escorregava bem. Tudo o resto deixou de existir e só a via, a ela, ali, à sua frente. Foi de um momento para o outro que sentiu o corpo dela a tocar no seu e tudo ficou enublado...

- Ei, Miro! Acorda!
Algo lhe feria os olhos. Que raios.
- Miro! Temos de ir embora!
- Agora não pai... Mais daqui a pouco...
Trás, trás, trás.
As suas bochechas arderam e Casimiro acordou de imediato.
- A tua roupa, pá?
Olhou-se. Bem que ele sentia uma estranha aragem a correr-lhe o corpo. Estava como veio ao mundo, no meio da praia.
- Pá, que marcas são essas? Eia... E essas cicatrizes? - Barnabé apontava-lhe o dedo.
O Astro olhou para a sua esquerda e estava o Jorge a observa-lo com ar aterrado... Olhou para a direita e a Vader, com as pontas dos dedos, pegava em algo pegajoso que saía por um orifício proveniente da sua barriga...
Pânico.
- NÃÃÃÃÃÃÃO!!!

- Então, filho! Toca a acordar que já são horas!

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