Como todos sabemos, Geração de 70 é o nome dado àquela que, entre 1865 e 1871, se afirmou como elite intelectual que promoveu um movimento cultural e literário renovador de funda repercussão no país. A Geração de 70, com o intuito de mudar a mentalidade retrógrada portuguesa, lá moveu umas palhinhas e deu seis conferências, as chamadas Conferências Democráticas do Casino.
Claro que o Mirinho não sabia nada disto. Conhecia-lhes o título (embora o número o intrigasse) e algumas personalidades que ali se encaixavam, como o "mestre" Antero de Quental, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Gerra Junqueiro e Teófilo Braga.
Foi naquele dia, uns valentes anos depois do seu auge conferencial, que a rapaziada da Geração, já mais gastos mas com os mesmos traços psicológicos (como iremos ver à frente), se juntou para a sétima Conferência, aquela de que ninguém soube.
Deu-se o evento em Coimbra, numa tarde sem vento e de agradável temperatura, no conhecido Jardim Botânico. Pois bem, estava tudo pronto: Junqueiro trouxe os rissoizinhos de carne e camarão, os bolinhos de bacalhau, os croquetes e os rolinhos de caranguejo; Eça, leviano caprichoso e provinciano, levou uns panados semicrus comprados no mesmo dia de manhã, no Lidl; Antero não cozinhava e, por isso, pediu à mãe para lhe fritar umas batatas; Ortigão levou os frutos secos.
Posta a toalha, que, juntamente com os guardanapos, fora trazida por Junqueiro, e, em cima, o material necessário ao desenrolar da mente (leia-se comida), os intelectuais repararam na falta de duas coisas: uma menos grave, que seria Teófilo, que, chegando duas horas depois, apresentou a desculpa de ter pernoitado em Braga; e uma mais grave, que seria algo que jamais poderá faltar na mesa de um português: bebida. A Geração ficou chocada e, claro, começou a pensar num método de salvação fácil que não exigisse ir ao mercado à saída do jardim comprar umas garrafinhas de vinhaça escura.
Mas, agora, perguntam vocês: o que tem isto a ver com Casimiro?
Pois bem, o Miro, que andava por essas alturas por Coimbra (já não me recordo a fazer o quê), calhou de estar a dar uns giros pelo Jardim Botânico. E, melhor das coincidências, com uma garrafa de vinho tinto na mão direita, que ele degolava com todo o prazer e mais algum, e outra na mão esquerda, guardada para quando a primeira calhasse de acabar.
As teorias de salvação dos vários membros variavam um pouco. Ramalho Ortigão defendia um método todo XPTO que incluía uma máquina a vapor e um robô telecomandado; Eça defendia algo muito mais fácil, em que alguém que não ele se levantava e ia comprar a garrafa, e depois pagava para lha virem trazer; já Antero dizia que, por si, mais valia telefonar à Telepizza a perguntar se entregavam vinho.
No entanto, não foi preciso dar asas a nenhuma dessas especulações, pois Teófilo, após olhar durante dez minutos para um sujeito que cambaleava ao de leve, apoiando-se muito na perna esquerda, com duas garrafas na mão, lhe reconheceu a figura de Casimiro, o Astro.
- Senhores, estamos salvos, estamos salvos, senhores!
- Que diz, senhor? – perguntou Antero.
- Cá para mim, deu-lhe o chilique – disse Eça com o nariz no céu.
- Senhores, estamos salvos, estamos salvoooooos, senhores!
Não teriam chegado lá com a ajuda de Teófilo Braga. Foi, então, Ortigão, o protector, que avistou Mirinho lá ao longe.
- Senhores, vislumbro no horizonte um vulto... Um vulto salvador, carregando com ele a água da salvação nas duas mãos, senhores. E ele, ele caminha para nós!
- Kawaii! – exclamou Junqueiro com euforia.
- Que evento gratificante, não é assim, senhores? – deixou-se Antero dizer.
Miro, apesar da quantidade de pó que os seus olhos viam no jardim, avistou a Geração muito bem estacionada num tapete voador aos quadradinhos vermelhos e brancos, todos de vista presa nele. Na altura, pensou: «Eu sou giro, mas não vos quero.»
- Casimiro! Ó Casimiro! – chamaram.
- Eh! Camaradas!
A verdade é que o Mirinho não é burro nenhum! Sabe ele muito bem que quando nos convidam para partilhar a mesa ou o transporte, que dessa vez parecia uma modernice dois em um, há que cumprimentar os companheiros. Dessa forma, diz ele:
- Quintal, usa chapéu na horta, que já te vejo rugas! Eças, essas moças bonitas têm dentes iguais! Ortigas, aposto que trouxeste frutos! Praga, olha o fio de mel que te cai na roupa!
E, esforçando-se para olhar com mais atenção:
– Guerras... Pareces uma casa, pá!
Os senhores ficaram um pouco tocados pelas palavras saloias de Miro. Mas, ultrapassando isso, a Geração, tal como lhe convinha, sentou um Miro alegre na toalha, completando mais o circulo que faziam em volta da comida.
- Ena! O tapete voa mesmo – disse logo Miro, abismado. – Mas, ó senhor, ordene-lhe lá para que não voe em círculos.
Dito isto, Antero espeta-lhe logo um panadinho boca adentro.
- Senhores, estamos salvos, estamos salvos, senhores! – Teófilo ainda agitava os braços às nuvens brancas pela visão do Astro lá ao longe.
- Senhor Casimiro, junte-se ao nosso banquete e celebremos a felicidade no mundo transcrita sob a forma de cultura, inteligência e criticismo – dizia Antero, esperando que o barro colasse à parede.
- Bota!
Casimiro não esperou que lho dissessem duas vezes e, pousando as duas garrafas, serviu-se de tudo um pouco. A Geração, satisfeita com a artimanha, sorriu entre si. Eça, que pegara na garrafa aberta, fez beicinho ao descobrir que já tinha acabado. Baixinho, fez conhecer aos colegas a situação, acabando com um desesperado «só resta uma garrafa para nos molhar a garganta, senhores». Assim, pegando em copos de plástico, a Geração dividiu o conteúdo irmãmente entre si, exceptuando Miro, que ficaria com o copo seco.
- Brindemos, senhores! – propôs Antero.
- Brindemos! – disse o coro intelectual, levantando os copos.
- Hurra! - exclamou o Astro, feliz.
Aí, Mirinho abre as calças, pega na garrafa escondida atrás do gémeo da perna direita, tira a rolha com o polegar quase sem esforço e, pondo a garrafa na horizontal e enfiando-a na boca, pensa «chau Laura, olá pinga!». A Geração, estupefacta, fica com os copos suspensos e, de olhos arregalados e presos no Astro, vê-o acabar o tinto maduro e, logo de seguida, cair em cima do fabuloso banquete, destruindo a refeição.
Os senhores, de estômago vazio, pensam na sua infelicidade e, com uma última pinga de conformação, pronunciam: «À sétima Conferência do Casino, aquela de que ninguém soube!» Dito isto, bebem o conteúdo de um gole.
- Senhores, estamos salvos, estamos salvos, senhores!
20 de Abril de 2009
Casimiro e a Geração de 70
Texto de
Paula Esteves


2 reacções:
Muito bom. Gostei :)
Parabéns à nova escritora!
muito me surpreende o casimiro.
ito sim é verdadeiro serviço publico!!!
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